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Jornalista Responsável:
Alberto Salino - MTb 13.016

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 “A JUSTIÇA SOZINHA NÃO RESOLVE”
  16 de fevereiro de 2016

O ECONOMISTA ITALIANO LUIGI ZINGALES, de 52 anos, construiu boa parte de sua carreira acadêmica nos Estados Unidos. Mas foram a infância e a juventude na Itália que ajudaram a moldar sua visão sobre o que chama de capitalismo de compadrio. A referência de sua terra natal era de um modelo corrupto que beneficiava aqueles que estavam próximos ao poder e que tirava a competitividade da economia. Professor da Universidade de Chicago, Zingales é considerado um dos mais renomados estudiosos das relações perniciosas entre governos e o mundo corporativo. Para ele, as recentes investigações anticorrupção no Brasil devem ajudar o país a aprimorar seu modelo de capitalismo - atualmente não muito diferente do italiano. Mas alerta que o combate à corrupção precisa ser feito em múltiplas frentes. “A Justiça é importante, mas não resolve o problema sozinha. A desburocratização da economia é crucial nesse processo.” Em um evento recente no Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, em São Paulo, Zingales concedeu a entrevista a seguir.


Está em curso uma das maiores investigações contra a corrupção no Brasil, a Operação Lava-Jato. Qual deveria ser o legado desse tipo de iniciativa?

Este é um momento crucial para aprimorar o capitalismo brasileiro. Estou impressionado com a efetividade e a independência dos procuradores brasileiros envolvidos nessa investigação. No entanto, temo que o processo possa ser paralisado em algum momento. Hoje, a população apoia os procuradores e os juízes, pois eles estão prendendo gente rica e poderosa. Mas, em sociedades em que a corrupção é muito difusa, a questão é se essas investigações chegarão ao limite extremo, alcançando as pessoas comuns. Foi isso o que ocorreu na Itália, com a Operação Mãos Limpas nos anos 90. Infelizmente, lá o processo foi interrompido.


E por que não deu certo?

À medida que as investigações da operação avançavam (mais de 6000 pessoas foram investigadas e 800 acabaram presas), muitos italianos começaram a se sentir acuados. A economia também estava paralisada. Foi nesse momento que se popularizou a figura de Silvio Berlusconi, que desmantelou a operação quando chegou ao cargo de primeiro-ministro. 

E como isso pode ser evitado?

Minha percepção sobre o Brasil é que, assim como na Itália, todo mundo comete algum tipo de ilegalidade. Isso porque é muito difícil se manter legal num sistema extremamente burocrático. Haverá um momento em que vai se disseminar a ideia de que se todo mundo é culpado, logo, ninguém é culpado. E esse é um momento importante que não chegou ainda ao Brasil, mas vai acontecer e determinará qual caminho o país quer adotar no futuro.


Qual deveria ser esse caminho?

Uma vez que tantas pessoas violam a lei, há duas formas de lidar com isso. Uma é encobrir a apuração de irregularidades - esse é o jeito Berlusconi. A outra é seguir adiante tendo como base um novo marco. Poderia haver algum tipo de anistia quando ocorresse voluntariamente a confissão de crimes. Nos casos que envolvem funcionários públicos e políticos, é importante o afastamento do exercício do cargo. Seria uma tentativa de passar a limpo as irregularidades, por menores que sejam. Mas, depois disso, o processo deveria ser implacável. Deixar no passado o que aconteceu de errado não significa perdoar o que foi feito, mas também não pode ser uma forma de travar o futuro. 


Quais países conseguiram fazer isso de forma democrática?

No início do século 20, os Estados Unidos eram um país extremamente corrupto. Naquela época, o que fez a diferença foi uma combinação de fatores como a pressão por padrões morais mais altos, o Judiciário eficiente e um presidente como Franklin Roosevelt, que queria mudanças. A imprensa teve papel importante ao longo do tempo. Obviamente ainda há corrupção nos Estados Unidos. Mais recentemente, o capitalismo americano tem sofrido com a proximidade excessiva entre o poder público e as grandes empresas.


Quanto maior o tamanho do Estado, maior é a chance de haver corrupção?

A corrupção se propaga onde há burocracia. E não existe um ambiente em que mais se difunde a corrupção do que o trabalho que envolve funcionários públicos. É importante, no entanto, fazer a distinção entre promover o bem-estar social e o gasto público que apenas aumenta a participação do Estado na economia. A Dinamarca e a Suécia, por exemplo, gastam muito com bem-estar social, mas não são países com grande número de funcionários públicos e não têm estatais gigantescas. Meu conselho para o Estado no Brasil: caia fora das atividades industriais, mantenha um sistema que gere os benefícios sociais o mais automatizado possível e foque numa estrutura de administração pública enxuta e eficiente. Isso não se faz do dia para a noite. Leva tempo - talvez, uns 30 anos.


A interferência do Estado brasileiro, na economia cresceu muito nos últimos anos. Qual deve ser o papel dos governos na economia?

É preciso focar no básico, como dar educação de qualidade para as crianças, garantir que as leis sejam respeitadas e mandar para a cadeia quem comete um crime. Se o governo não consegue fazer o básico, como vai ser, capaz de fazer direito uma política industrial?
 

“NO BRASIL, O TERMO CAPITALISMO É PERCEBIDO COMO ALGO RUIM. ISSO PORQUE AS PESSOAS EXPERIMENTARAM APENAS O CAPITALISMO CORRUPTO.”


O que o Brasil precisa fazer para voltar a crescer novamente?

No Brasil, o termo capitalismo é percebido como algo ruim. Isso porque as pessoas experimentaram apenas o capitalismo corrupto. Para elas, a alternativa seria tentar desde uma forma mais branda de socialismo até uma versão mais agressiva, à Ia Chávez, na Venezuela O Brasil precisa de políticos com uma orientação pró-mercado, o que não é o mesmo que pró-empresas, o capitalismo de compadrio. Uma coisa é atuar em favor de algumas empresas. Outra é permitir que todas tenham as mesmas oportunidades de prosperar. Isso vai incentivar a inovação e tornar o país mais competitivo.


Corre no Congresso Nacional um pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Como o senhor avalia um possível afastamento da presidente?

Um processo de impeachment é traumático, mas é importante para consolidar a democracia de um país, pois fica claro que ninguém está acima da lei - nem a presidente. É preciso haver elementos concretos para seu afastamento. Sendo assim, creio que vai ser positivo para o país. Mas isso não significa que o jeito de fazer política terá mudado. O Brasil precisa desesperadamente de uma elite política comprometida com novos valores - e não agarrada à ideia de se manter no poder. O impeachment sozinho não muda as coisas. Se a saída de Dilma for apenas para favorecer X ou Y, não terá servido para nada.


Fonte: Revista EXAME - 3 de fevereiro de 2016
Autora: Fabiane Stefano



Comentários


Paulo Nery27 de fevereiro de 2016
As experiencias da Justiça italiana no episódio supra citado pelo economista Luigi, não obtiveram o êxito esperado pelo povo e sequer pelas autoridades (serias) daquele país. Suas palavras em que fala sobre a \"independência\" que tem as nossas autoridades judiciais incumbidas em investigar, são de fato reais e concretas. Entretanto, a Justiça italiana não logrou e sequer concluiu seus objetivos. O de punir com a força das Leis italiana, os \"corruptos\". Lá, na Itália virou \"pizza a napolitana\". O Sr. Luigi acrescenta: SEM O POVO, os Desembargadores, Juízes e Promotores brasileiros também poderão se renderem \"ás pizzas\". O que, certamente trarão, também, FORTES REAÇÕES PÚBLICAS. Assim espero.

Adriana Alves de Melo16 de fevereiro de 2016
A constituição foi moldada por um sistema político econômico retrógrado. A historia deixa cada vez mais elucidativo as questões econômicas. Pode ser observado através das citações de Cícero, as preocupações da quela época são exatamente as preocupações de hoje. Mas até hoje as autoridades competentes não se manifestaram para uma devida reforma. Enquanto houver brechas a lei nunca serão respeitadas de forma rígidas. “O orçamento deve ser equilibrado, o Tesouro Público deve ser reposto, a dívida pública deve ser reduzida, a arrogância dos funcionários públicos deve ser moderada e controlada, e a ajuda a outros países deve ser eliminada, para que Roma não vá à falência. As pessoas devem novamente aprender a trabalhar, em vez de viver às custas do Estado “.

Ano 55 AC…

Mas, infelizmente é esse o modelo de sistema econômico do Brasil.

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